Relação de Roberta Luchsinger com filho do presidente já vinha sendo explorada politicamente pela oposição; Eduardo ameaçou retaliar diplomatas em eventual governo de Flávio.

O caso envolvendo Roberta Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, ganhou uma nova frente na reta final da eleição. Mensagens divulgadas nesta 4ª feira (30.set.2026) mostram que o então embaixador brasileiro em Madri, Orlando Leite Ribeiro, foi acionado por Luchsinger à época em que o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se mudou com a família para a Espanha, em julho de 2025.

A relação de Luchsinger com Lulinha já vinha sendo explorada politicamente pela oposição. Em janeiro de 2026, Lulinha abriu a Synapta SL, empresa registrada na capital espanhola, e em abril transferiu seu endereço fiscal para um coworking no Paseo de la Castellana. O espaço não era usado presencialmente pelo empresário.foi divulgada Metrópoles e confirmada ao Poder360 nesta 4ª feira. O MRE (Ministério das Relações Exteriores) afirmou que o então embaixador brasileiro em Madri, Orlando Leite Ribeiro, conheceu Luchsinger e a mulher de Lulinha, Renata Abreu Moreira, em setembro de 2024, durante um evento de promoção comercial na representação brasileira.

Segundo o Itamaraty, Luchsinger pediu posteriormente uma lista de escolas em Madri. O setor educacional da Embaixada forneceu apoio porque tinha os contatos das instituições locais.

O ministério afirmou que prestar informações e compartilhar contatos locais com cidadãos brasileiros faz parte do trabalho cotidiano das embaixadas. Também negou que um veículo da representação tenha sido usado no caso.

Procurado pelo Poder360, o advogado de Luchsinger, Marco Aurélio de Carvalho, disse que não identifica irregularidade. Segundo ele, prestar assistência a brasileiros no exterior faz parte das atribuições de uma representação diplomática. Disse ainda que as conversas acessadas pela Polícia Federal no celular da lobista não revelam “rigorosamente nada de errado” na atuação de Ribeiro.

O advogado afirmou que Luchsinger e Ribeiro não eram amigos e não frequentavam jantares juntos. Segundo ele, os dois mantinham uma relação cordial.

As mensagens, porém, mostram que a atuação de Ribeiro não se limitou ao fornecimento de contatos. 

Em uma das mensagens, há referência a uma gravata dada por Luchsinger ao diplomata. As conversas mostram ainda Ribeiro mantendo contato direto com ela durante a organização da mudança.

Ribeiro chegou à Embaixada em Madri durante o governo de Jair Bolsonaro e permaneceu no posto depois da eleição de Lula. Deixou a Espanha em 2025, quando foi transferido para a República Tcheca.

A trajetória do diplomata ajuda a explicar por que o episódio passou a ser explorado politicamente. Ribeiro ocupou um posto considerado estratégico durante o governo de Jair Bolsonaro (PL) e buscava permanecer na estrutura diplomática com a mudança de governo.

Ribeiro foi secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura de 2018 a 2022, durante o governo Bolsonaro. Em 2022, assumiu a Embaixada do Brasil em Madri.

A aproximação com pessoas ligadas ao novo núcleo de poder também ganha relevância nesse contexto. Lulinha era uma das pessoas próximas ao presidente que poderiam representar uma porta de acesso ao novo governo.

Não há, porém, indicação nas informações apresentadas pelo Itamaraty de que a atuação de Ribeiro tenha sido irregular.

OPOSIÇÃO SURFA 

A atuação do diplomata passou a integrar a ofensiva da oposição contra o governo Lula. O episódio também ganhou contornos eleitorais a 4 dias do 1º turno, marcado para domingo (4.out.2026), e foi incorporado aos ataques de aliados de Flávio Bolsonaro (PL) ao governo e ao Itamaraty.

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), irmão do candidato, publicou um vídeo no Instagram em que criticou a atuação da representação brasileira em Madri. Afirmou que poderia haver retaliação contra diplomatas em um eventual governo de Flávio.

Eduardo citou especificamente o então embaixador Orlando Leite Ribeiro e afirmou que ele seria um dos primeiros a deixar o posto caso Flávio fosse eleito. O atual embaixador brasileiro na Espanha é Luiz Alberto Figueiredo. Ribeiro deixou o posto em julho de 2025, quando foi removido para a República Tcheca.

O deputado Ubiratan Sanderson (PL-RS), vice-líder da Oposição na Câmara, acionou o Tribunal de Contas da União para pedir investigação sobre a atuação da Embaixada brasileira em Madri no episódio.

A representação questiona o possível uso de pessoal, bens e serviços públicos para auxiliar pessoas ligadas à família do presidente.

O Itamaraty, porém, não classificou a atuação como excepcional. 

OUTRO LADO

O Poder360 procurou Orlando Leite Ribeiro por e-mail para perguntar se gostaria de se manifestar a respeito da atuação da Embaixada do Brasil em Madri no auxílio a Roberta Luchsinger. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado caso uma manifestação seja enviada a este jornal digital.

Itamaraty confirma apoio de embaixada a amiga de Lulinha em mudança para a Espanha

O Ministério das Relações Exteriores (MRE) confirmou nesta quarta-feira (30) ter prestado auxílio à empresária Roberta Luchsinger no processo de mudança de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, para a Espanha.

Trocas de mensagens reveladas pelo portal Metrópoles indicaram o apoio da representação diplomática brasileira para mapear e contatar escolas para os netos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Madri.

De acordo com o Itamaraty, o então embaixador do Brasil em Madri, Orlando Leite Ribeiro — atualmente titular da embaixada de Praga, na República Tcheca —, já conhecia Roberta de um evento da diplomacia e disponibilizou uma lista de instituições de ensino, além do acompanhamento de uma servidora do MRE.

"Com relação aos colégios, me diga, se vocês depois analisarem essa lista, indiquem quais vocês gostam mais. E aí a gente arruma uma maneira de fazer uma agenda para vocês e vai também uma funcionária da embaixada acompanhando, caso vocês queiram. Está bom? Estou aqui inteiramente às ordens”, disse o embaixador em áudio que integra o inquérito da Polícia Federal (PF).

Em outra mensagem, o diplomata colocou à disposição de Roberta uma van da frota oficial. O Itamaraty, no entanto, informou que o veículo mencionado não chegou a ser utilizado.

Outro lado

A reportagem da Gazeta do Povo procurou a defesa de Roberta Luchsinger, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. Em manifestações anteriores sobre as investigações, a empresária afirmou que provará sua inocência e declarou que sua relação de amizade com o filho do presidente vem sendo indevidamente criminalizada.

A defesa de Lulinha também foi procurada e não retornou ao contato. Em ocasiões anteriores, os advogados negaram a prática de qualquer ilícito e criticaram o que classificam como "vazamentos seletivos" com objetivos político-eleitorais.

O Itamaraty sustentou extraoficialmente que o atendimento prestado a Roberta não diferiu da assistência consular rotineira oferecida a outros cidadãos no exterior. "A prestação de informações e o compartilhamento de contatos locais com cidadãos brasileiros constituem parte inerente do trabalho cotidiano das Embaixadas", declarou o órgão.

Lulinha e Roberta Luchsinger são alvos de investigações conduzidas pela Polícia Federal em inquéritos que apuram a suposta prática de tráfico de influência e contrapartidas financeiras no âmbito do governo federal.

Com informação: poder360.com.br / gazetadopovo.com.br