Próximo presidente encara economia fragilizada por dívida alta e juros elevados
O vencedor das eleições presidenciais de outubro herdará um cenário econômico desafiador em 2027, com a dívida pública em trajetória de alta e taxas de juros que devem permanecer em dois dígitos.
Para entender melhor, imagine que a dívida é o saldo devedor do país. Se nada for feito para controlar os gastos, esse valor pode igualar 100% do PIB em 2031 ou 2032. Isso significa que o Brasil estaria devendo exatamente tudo o que consegue gerar de riqueza em um ano. Desde o início do atual mandato do presidente Lula, essa dívida já subiu mais de 10 pontos percentuais, reduzindo drasticamente a capacidade de investimento do governo.
Por que os juros altos afetam tanto o dia a dia das famílias e empresas?
Quando o governo gasta mais do que arrecada, o Banco Central mantém a taxa Selic alta para tentar segurar a inflação. Atualmente em 14%, esses juros tornam o crédito caríssimo. Para as famílias, isso significa juros de 64% ao ano em empréstimos pessoais e surreais 442% no rotativo do cartão de crédito. O resultado é um endividamento recorde: 82% das famílias brasileiras possuem dívidas a vencer. Para as empresas, o custo do capital impede a modernização e expansão, o que já causou um aumento de 21,7% nos pedidos de recuperação judicial, processo usado por quem está prestes a quebrar.
O que o mercado financeiro espera como solução para equilibrar as contas?
Investidores e analistas cobram um ajuste fiscal rigoroso, que nada mais é do que uma estratégia séria para cortar gastos e garantir que o país consiga pagar suas contas sem imprimir dinheiro ou se endividar mais. O mercado estará atento aos primeiros cem dias do novo governo para checar se haverá compromisso real com metas fiscais ou se serão usadas manobras contábeis e receitas temporárias. Sem essa confiança, o dólar tende a subir, pois os investidores estrangeiros exigem pagamentos maiores para manter dinheiro no Brasil, o que acaba encarecendo produtos importados e gerando mais inflação.
Como ficará o crescimento da economia e o emprego nos próximos anos?
A economia brasileira está perdendo fôlego. O crescimento atual, estimado em cerca de 2% para 2026, é considerado artificial por ser sustentado por pesados gastos estatais e crédito subsidiado. Para 2027, a projeção cai para apenas 1%, refletindo o esgotamento desse modelo. Esse desaquecimento começa a atingir o mercado de trabalho. Embora o desemprego esteja baixo hoje, em 5,4%, a falta de investimentos deve elevar esse índice para até 6,5% no fim de 2027. O próximo presidente terá o desafio de estimular a atividade econômica justamente quando terá menos dinheiro público disponível.
A conta que espera o próximo presidente: dívida em alta, juros e pouco espaço para gastar
O presidente da República eleito em outubro encontrará uma economia com pouco espaço para errar: a dívida bruta do governo pode chegar a 88% do PIB em 2027, enquanto a taxa de juros, atualmente em 14%, deve permanecer em dois dígitos.
Para gestores e analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, o principal desafio da próxima administração será conter essa trajetória por meio de um ajuste fiscal. Sem isso, as consequências tendem a ser graves: juros elevados, crédito mais caro e um estrangulamento ainda maior de famílias e empresas.
O diagnóstico do mercado é de que o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem sido marcado pela ampliação dos gastos públicos e pelo endividamento acelerado. Desde o início do atual mandato de Lula, a dívida bruta avançou 10,3 pontos percentuais.
Novos recordes devem vir já no próximo ano. O BTG Pactual prevê a dívida em 86,4% do PIB no fim de 2027; a XP Investimentos, em 88%. Se nada for feito, o patamar de 100% pode ser atingido em 2032, estima Olívia Flôres de Brás, presidente da Magno Investimentos. A Instituição Fiscal Independente (IFI), braço do Senado que acompanha as contas públicas, prevê o mesmo nível para 2031.
É sobre esse pano de fundo que a sucessão presidencial entra em campo: as pesquisas indicam disputa acirrada entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro.
Mercado cobra ajuste fiscal do próximo governo
"O primeiro teste ocorrerá antes mesmo dos cem dias de governo", diz Fábio Murad, sócio-fundador da Ipê Avaliações. Ele destaca que investidores e agentes econômicos observarão se existe estratégia capaz de sinalizar sustentabilidade fiscal.
Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, pondera que o impacto de uma eventual reeleição de Lula dependerá das decisões concretas sobre orçamento, tributação e instituições, e não do tom do discurso.
O mercado acompanhará de perto a composição da futura equipe econômica e o compromisso real com as metas fiscais. Novas receitas temporárias ou manobras contábeis que contornem o arcabouço fiscal em vez de respeitá-lo não devem acalmar os investidores, segundo fontes ouvidas pela Gazeta do Povo.
Economia perde força com o fim dos estímulos
Não é apenas no front fiscal que o próximo governo encontrará dificuldades: a economia chega desaquecida. O ano de 2026 ainda se sustenta, com expansão real estimada entre 1,9% e 2,0% na comparação com 2025. O impulso vem do pesado gasto do Estado e do crédito subsidiado — estímulo artificial, não crescimento sustentável.
Mas analistas apontam que esse impulso tem prazo de validade. Para 2027, a XP estima crescimento de 1,0% e o BTG projeta 1,1%, reflexo do esgotamento do estímulo e da piora no mercado de crédito.
O problema é que o próximo governo poderá encontrar uma economia mais fraca justamente quando terá menos espaço para recorrer a gastos públicos e crédito subsidiado para estimular a atividade.
Juros altos encarecem crédito e dívida
A ausência de um ajuste fiscal nos últimos anos já se reflete no custo do dinheiro e será esse o cenário que o vencedor de outubro vai encontrar. Com as despesas do Estado em expansão, o Banco Central (BC) precisa manter juros elevados para conter a inflação. O descontrole das contas públicas aumenta o custo para o governo se financiar no longo prazo e encarece o crédito para empresas e famílias.
O boletim Focus divulgado no último dia 10 projeta a Selic em 13,75% ao ano no fim de 2026 — o que implica mais um corte de 0,25 ponto percentual. Há, porém, instituições que não veem espaço para novas quedas.
Gustavo Bertotti, chefe de renda variável da Fami Capital, dimensiona o problema da falta de preocupação com o ajuste fiscal por parte do atual governo. Ele lembra que, em janeiro, se falava em 2026 encerrar com a Selic a 12% ao ano. "Agora, estamos falando em 14%", diz.
Dívida pública fica mais cara
O descontrole fiscal também pesa sobre a rolagem da dívida, o processo pelo qual o governo emite novos títulos para pagar os que vencem.
O Tesouro IPCA+ (título que rende a inflação mais uma taxa prefixada) com vencimento em maio de 2029 ilustra o salto: a taxa paga pelo governo passou de 6,26% ao ano em janeiro de 2023, início do atual mandato de Lula, para 8%, segundo o Tesouro Nacional.
A remuneração de outro papel, o Tesouro IPCA+ 2035, saltou de 6,14% para 7,98% ao ano no mesmo intervalo. Quando começou a ser negociado, em março de 2010, a taxa ofertada era de 6,23%.
Juros altos apertam famílias e empresas
O ambiente de juros elevados também chega às famílias. O consumo, âncora do PIB brasileiro, vem perdendo força, enquanto o custo do crédito pesa cada vez mais no bolso.
As linhas às pessoas físicas seguem caras: a taxa média das operações chegou a 64% ao ano em junho, o maior nível desde março de 2017, aponta o Banco Central.
Em operações sem garantia, o quadro é ainda mais severo: no rotativo do cartão, a modalidade mais cara do mercado, a taxa atingiu 442,4% em junho, também segundo o Banco Central.
O endividamento cresce: 82% das famílias tinham alguma dívida a vencer em julho de 2026, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), representando o recorde da série histórica.
Os juros altos também contribuíram para o salto de 21,7% no número de empresas em recuperação judicial — instrumento que protege companhias em dificuldade contra a falência — na comparação entre os segundos trimestres de 2025 e 2026. Os dados são da RGF Associados, consultoria especializada em reestruturação corporativa.
A persistência do aperto monetário começa a cobrar preço sobre o emprego. O custo do capital adia planos de expansão e modernização das empresas.
A taxa de desemprego ainda está em patamares baixos — 5,4% na média do trimestre encerrado em junho de 2026, segundo o IBGE. Mas o efeito defasado do crédito caro e a desaceleração da atividade devem reverter essa tendência. Bradesco e Itaú veem a taxa em 6,1% no próximo ano, enquanto a XP projeta 6,5% até o fim de 2027.
Dólar pode ampliar a pressão sobre a economia
Os juros altos e a deterioração fiscal não corroem apenas o bolso e o emprego, mas atingem também a moeda. Até agora, o real se mantém resiliente, negociado em torno de R$ 5,20 por dólar. Sustentam a moeda o robusto superávit comercial, impulsionado pela exportação recorde de commodities como o petróleo, e o forte ingresso de investimentos diretos.
Em tese, juros altos atraem investidores estrangeiros e ajudam a valorizar o real. Mas o risco fiscal pode anular esse efeito: diante da piora das contas públicas, investidores passam a exigir uma remuneração maior para colocar dinheiro no país, pressionando o dólar para cima. As projeções para o fim de 2027 refletem essa tensão: o Focus estima o câmbio a R$ 5,28 por dólar, mas o BTG Pactual e o Itaú sinalizam R$ 5,50.
É esse cenário que estará à espera do próximo presidente: uma dívida crescente, juros elevados, crédito caro e uma economia com menos espaço para novos estímulos. Para o mercado, o ajuste fiscal será o teste decisivo para impedir que a deterioração das contas públicas continue contaminando o restante da economia.
Apesar disso, nem todos os presidenciáveis têm abordado o tema em seus planos de governo. O próprio presidente Lula não detalha nenhuma medida concreta de redução de despesas em seu programa econômico para a disputa eleitoral deste ano, embora o documento defenda, genericamente, o “controle do aumento do gasto primário”.
Com informação: gazetadopovo.com.br
