Investigação sobre lavagem do tráfico chega ao STF por possível elo com casos Master e INSS
Investigação foi enviada para análise de André Mendonça, relator dos casos Master e INSS no STF.
Uma investigação sobre tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, iniciada em 2024 pela Polícia Civil de São Paulo, chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) no início deste mês, por possível ligação com as fraudes do Banco Master e das aposentadorias do INSS. Os investigadores rastrearam uma rede de contas, empresas de fachada e pessoas físicas que, segundo relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), movimentaram cerca de R$ 48 bilhões no período de cinco anos.
A investigação partiu da prisão, em 2024, de um traficante flagrado com drogas, instrumentos para venda de entorpecentes e R$ 100 mil em espécie. Com a quebra de seu sigilo bancário e de seu fornecedor, a polícia passou a vasculhar sucessivas transações financeiras, partindo de empresas em nome de laranjas para outras controladas por operadores suspeitos de movimentar recursos de diversos esquemas criminosos. A investigação cresceu e recebeu o nome de Operação Saturno.
A conexão com o Master foi identificada numa sequência de transações entre várias empresas. Identificou-se, inicialmente, que uma distribuidora, chamada Maguinific, repassou R$ 7,5 milhões, oriundos de venda de drogas, à Nexpay, uma fintech de intermediação de pagamentos em sites de compras da China. Para repassar o dinheiro aos vendedores chineses, a Nexpay fazia operações de câmbio no Master.
Outra ligação com o Master aparece em duas transferências que somam R$ 940 mil de uma empresa chamada Wave para a Entre Investimentos e Participações, grupo que mantinha fundos no Master e que teria sido usado pelo banqueiro Daniel Vorcaro para repassar dinheiro para a produção do filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo a Polícia Civil de São Paulo, a Wave é usada para lavar dinheiro de diversos esquemas criminosos e aparece na Operação Saturno “exercendo papel fundamental na dissipação de valores oriundos do tráfico de drogas”.
Já a suspeita de ligação com as fraudes do INSS aparece porque a Prospect Consultoria Empresarial, pertencente ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, repassou R$ 13,7 milhões à empresa Arpar Administração, Participação e Empreendimento.
Essa empresa, por sua vez, transferiu recursos a um grupo de outras cinco empresas suspeitas de receberem dinheiro do tráfico.
Várias dessas empresas intermediárias, segundo a investigação, foram abertas em nome de “laranjas” – em geral, trabalhadores de baixa renda abordados por conhecidos que pediam seus documentos pessoais para abrirem uma firma em troca de pagamentos mensais, de R$ 1 mil ou R$ 2 mil.
No relatório final da investigação, a Polícia Civil de São Paulo pede o envio do caso à Justiça Federal em razão de ligações com investigações da Polícia Federal. Foram indiciadas oito pessoas apontadas como controladoras das empresas que lavavam dinheiro para o tráfico e diversos outros esquemas.
“Foi possível identificar que os sistemas de lavagem não atuam para apenas um segmento, fundindo operações relacionadas ao tráfico, sonegação, fraudes, contrabando, entre outros, atuando na dissipação dos valores, que são empregados em câmbios paralelos, compra de criptomoedas, transmutados em valores em espécie, para retornarem 'lavados' aos verdadeiros responsáveis”, diz o relatório final.
“Desvendou-se a existência de um verdadeiro ‘SISTEMA FINANCEIRO PARALELO’, à margem dos sistemas de controle, onde operadores oferecem serviços de todos os tipos e naturezas, desde a abertura fraudulenta de contas correntes ao câmbio paralelo, recebendo spreads [margens de lucro] pelas operações e serviços prestados”, diz o documento.
O Ministério Público de São Paulo concordou com o envio do caso para a Justiça Federal e reafirmou a complexidade do caso. “Os investigados operavam esquema sofisticado de circulação e dissimulação de valores ilícitos, com uso reiterado de contas em nome de terceiros, empresas sem atividade econômica real, fintechs, bancos digitais e até criptoativos, em dinâmica de pulverização e recomposição dos recursos, dificultando sobremaneira sua rastreabilidade”, diz o parecer do órgão.
Instado a se manifestar, o Ministério Público Federal (MPF) opinou pelo envio do caso ao STF, em razão da possível conexão com casos investigados na Corte – os inquéritos do Master e do INSS são supervisionados pelo ministro André Mendonça.
O procurador que analisou o relatório ressalvou, no entanto, a possibilidade de não haver conexão direta com os esquemas do banco e do órgão da previdência.
“A prática demonstra que a análise de RIFs [relatórios de inteligência financeira] muitas vezes leva à verificação de esquemas paralelos sem conexão, haja vista que muitos doleiros e operadores transacionam entre si em sistema de compensação. Nesses casos, evidentemente não há conexão, mas eventualmente descoberta fortuita, que deve ser autuada em separado, apenas com as peças pertinentes, e encaminhada ao Juízo competente”, escreveu no parecer favorável ao envio da investigação ao STF.
O inquérito chegou ao gabinete de André Mendonça no último dia 12 em segredo de Justiça e, até o momento, o ministro não adotou providências.
O que dizem os envolvidos citados na investigação
Procurada pela reportagem, a defesa de Antônio Carlos Camilo Antunes afirmou que desconhece a investigação e que não iria se manifestar sobre as suspeitas. A defesa de Daniel Vorcaro, do Banco Master, também não se manifestou. O espaço permanece aberto.
Em depoimento no inquérito, em abril, o dono da Nexpay afirmou que a empresa foi fechada no ano passado. Alegou que a Maguinific era uma empresa de e-commerce e operou com a Nexpay por aproximadamente dois meses e meio. Segundo ele, a empresa cadastrou as empresas estrangeiras para recebimento dos valores, enviou documentação com dados de compradores, valores e conversões cambiais.
“Os documentos apresentados eram considerados regulares, contendo CPFs válidos, inexistindo indícios aparentes de irregularidade no momento das operações [...] Não havia ciência da eventual origem ilícita dos valores, considerando que as operações eram acompanhadas de documentação formal e regular”, afirmou o dono da Nexpay.
As demais empresas não tiveram seus sócios ou administradores indiciados – a investigação verificou que estavam em nome de laranjas, em geral trabalhadores de baixa renda, que não operavam as contas nem sabiam da origem ilícita dos valores.
Empresas da Operação Saturno já haviam aparecido em investigação sobre PCC
A estrutura formada por empresas como Wave e Arpar já havia aparecido em investigação sobre uma suposta rede de lavagem de dinheiro ligada ao PCC.
Como a Gazeta do Povo mostrou em julho, documentos da CPMI do INSS apontaram que a Wave recebeu R$ 514,5 milhões da Victory Trading, empresa de Victor Shimada, sancionado pelo governo dos Estados Unidos por suposta ligação com uma rede de lavagem de dinheiro da facção.
A Wave também foi apontada como parte da chamada rede Arpar, que teria sido usada para lavar recursos de diferentes esquemas criminosos.
A empresa foi procurada pela reportagem da Gazeta do Povo em julho, mas não se manifestou. Anteriormente, em maio de 2025, ao Fantástico, da TV Globo, ao tratar de outra irregularidade investigada, um representante da companhia negou que a Wave tivesse participação em lavagem de dinheiro, afirmou que a empresa trabalhava com criptomoedas e disse que as operações haviam sido encerradas.
Em julho, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos incluiu Shimada em sua lista de sancionados para combater o crime organizado transnacional. Segundo o governo americano, ele teria participado de uma rede de lavagem de dinheiro utilizada pelo PCC para movimentar recursos provenientes de atividades ilícitas. A medida também atingiu empresas e outros integrantes apontados como parte da estrutura financeira da organização.
A defesa de Shimada negou as acusações. Em manifestação à Gazeta do Povo à época, os advogados afirmaram que ele não tem relação com o PCC, classificaram as acusações como infundadas e questionaram as sanções impostas pelos Estados Unidos.
Agora, documentos da Operação Saturno mostram que essa mesma estrutura aparece em uma investigação sobre tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, com transações que também alcançaram empresas relacionadas ao Banco Master e ao esquema de fraudes do INSS.
Em nota enviada à Folha de S.Paulo, em 3 de julho de 2026, a Entre Investimentos afirmou que “realiza suas operações em conformidade com as normas e regulamentações aplicáveis ao setor financeiro” e reforçou seu compromisso com a integridade, a transparência e o cumprimento da legislação vigente. A empresa disse ainda que permanecia à disposição das autoridades competentes sempre que fosse necessário.
Investigação sobre rede bilionária de lavagem de dinheiro chega ao STF
Uma complexa rede de lavagem de dinheiro que movimentou R$ 48 bilhões em cinco anos motivou o envio de um inquérito da Polícia Civil de São Paulo ao Supremo Tribunal Federal neste mês. A apuração, batizada de Operação Saturno, detectou conexões entre o tráfico de drogas e fraudes envolvendo o Banco Master e aposentadorias do INSS, todos sob a supervisão do ministro André Mendonça.
Como a polícia descobriu esse esquema bilionário de lavagem de dinheiro
Tudo começou em 2024 com a prisão comum de um traficante que portava drogas e R$ 100 mil em dinheiro vivo. A partir dali, os investigadores conseguiram autorização para olhar as contas bancárias dele e de seu fornecedor. O que parecia um caso isolado revelou um emaranhado de transações financeiras. A polícia seguiu o rastro do dinheiro, que saía de contas em nome de 'laranjas' para empresas controladas por operadores especializados em esconder recursos ilegais. O Coaf, órgão que fiscaliza movimentações suspeitas, apontou que o grupo movimentou R$ 48 bilhões em apenas cinco anos.
Qual é a ligação direta entre o tráfico de drogas e o Banco Master
Os investigadores identificaram que o dinheiro da venda de entorpecentes passava por várias empresas até chegar ao banco. Por exemplo, uma distribuidora repassou R$ 7,5 milhões do tráfico para uma fintech chamada Nexpay, que faz pagamentos para sites chineses. Para enviar esse dinheiro ao exterior, a Nexpay utilizava o Banco Master em operações de câmbio. Além disso, outra empresa suspeita de lavar dinheiro, a Wave, enviou quase R$ 1 milhão para um grupo que mantinha fundos no Master e que estaria ligado ao financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
De que maneira as fraudes do INSS aparecem nessa mesma investigação
A conexão com as aposentadorias surgiu através de repasses financeiros entre consultorias e empresas de fachada. Uma empresa pertencente ao lobista Antônio Carlos Antunes, conhecido como 'Careca do INSS', transferiu R$ 13,7 milhões para a Arpar Administração. Esta última, por sua vez, enviou dinheiro para outras cinco firmas que são suspeitas de receber recursos diretamente do tráfico de drogas. Essa rede Arpar é vista como uma peça-chave para misturar dinheiro de crimes diferentes, dificultando o trabalho das autoridades em identificar qual é a origem real de cada montante.
Quem são os responsáveis pelas empresas e como eles operavam
A investigação indiciou oito pessoas que controlavam o que chamaram de 'sistema financeiro paralelo'. Esses operadores ofereciam serviços que iam desde a abertura de contas fraudulentas até a compra de criptomoedas e câmbio ilegal. Para não aparecerem, eles usavam documentos de trabalhadores de baixa renda para abrir empresas de fachada. Essas pessoas, os 'laranjas', recebiam pagamentos mensais de cerca de R$ 2 mil apenas para emprestar seus nomes, sem ter ideia de que suas contas estavam sendo usadas para girar bilhões de reais vindos de atividades criminosas.
Com informação: gazetadopovo.com.br
