Chefe de gabinete de Lula emprestou dinheiro de lobista que estaria envolvida na fraude do INSS

 Quem nunca pegou empréstimo?”, disse o presidente Lula a dirigentes de duas legendas-satélites do petismo, o Psol e a Rede, na semana passada. Era uma tentativa de defender seu ex-chefe de gabinete, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. De fato, o empréstimo virou parte do cotidiano do brasileiro – que o digam os 82% de famílias endividadas, proporção recorde apesar dos programas eleitoreiros lançados por Lula, e que continuam recorrendo a esse meio para custear as despesas do dia a dia. O curioso, no caso de Marcola, está em todas as outras circunstâncias que fazem desse empréstimo específico uma operação nada trivial.

Afinal, com tantas instituições financeiras (inclusive estatais) dispostas a oferecer crédito, e que não haveriam de negar crédito a um funcionário público com cargo bem remunerado, Marcola preferiu pegar dinheiro – que não era pouco: quase R$ 250 mil – de uma pessoa física. Por que motivos, não se sabe; o mais intrigante é que, em vez de recorrer a amigos ou a parentes, o chefe do gabinete presidencial se tornou devedor de Roberta Luchsinger, a lobista apontada como elo entre Antônio Camilo Antunes, o “careca do INSS” – apontado como um dos principais personagens do escândalo de fraude bilionária envolvendo descontos não autorizados na aposentadoria de milhões de brasileiros –, e Fábio Luís Lula da Silva, um dos filhos do presidente da República e amigo de Luchsinger.

Marcola não era um servidor qualquer, mas alguém que praticamente funcionava como a chave que dava acesso ao presidente Lula

A bem da verdade, há dúvidas até mesmo sobre a natureza do negócio, que não seria um empréstimo nos moldes tradicionais: veículos de imprensa como os portais Metrópoles e Poder360, e o jornal Valor Econômico, apuraram que, na verdade, Luchsinger estaria bancando despesas pessoais de Marcola, que enviava à lobista os boletos com códigos de barras para que ela os pagasse. Ao Poder360, Marcola afirmou receber “com surpresa a matéria que trata um empréstimo pessoal contraído e já quitado como algo ilegal”. Mesmo com toda essa consciência de não ter feito nada de errado, ele deixou a campanha de Lula à reeleição, à qual vinha se dedicando desde julho, quando foi exonerado da chefia do gabinete presidencial.

Eis aqui um detalhe que faz toda a diferença. Marcola não era um servidor qualquer, mas alguém que praticamente funcionava como a chave que dava acesso ao presidente Lula. Sua relação com o petista já tem mais de dez anos, e Marcola esteve entre os apoiadores que pararam suas vidas para integrar o acampamento montado diante da sede da Polícia Federal em Curitiba, durante o tempo em que Lula esteve preso, após a condenação na Lava Jato. A confiança era tanta que, segundo o Poder360, era Marcola quem ficava com o celular que recebia chamadas para o presidente da República.

O ex-chefe de gabinete também é investigado em um dos três inquéritos abertos para investigar suposto tráfico de influência envolvendo Lulinha – aliás, segundo o Valor, Marcola só devolveu o dinheiro que teria pego emprestado de Luchsinger quando foi informado, sabe-se lá como, que havia mensagens suas para a lobista em um celular que pertencia a ela e cujo sigilo tinha sido quebrado. Este é apenas mais um detalhe muito estranho de uma transação envolvendo valores nada desprezíveis, uma lobista com interesse em acesso aos círculos do poder brasiliense, e um servidor que podia proporcionar esse acesso. Mas, para Lula, tudo não passa de um empréstimo como qualquer outro...


Com informação: gazetadopovo.com.br