Cabaceiras, a cidade que tirou leite de pedra – Por Heron Cid
Uma grande revolução. Por iniciativas individuais, como a de Thamires, que, sem perspectiva de emprego, foi estimulada a fazer pizza em casa. Depois, contra todos os conselhos, encorada a montar sua própria pizzaria, a Borda de Ouro, um sucesso hoje na cidade e região. Ou a do casal Késsia e Sílvio, da Pousada Roliúde, cuidada nos mínimos detalhes, com direito a cinema e tudo.
Ou por organizações coletivas, como a CapriBov, que produz iogurte, doce de leite e queijos premiados, tudo vertido das milagrosas tetas da cabra. Deu gosto ver o orgulho humilde de Emerson contando a história da cooperativa e mais ainda de ouvir o depoimento de Julianalda, expositora dos premiados produtos da Cooperativa. Mulher, sensível, marejou os olhos ao lembrar que tudo começa lá na roça, com pequenos criadores, apostando tudo da vida nos seus animais, cuidados como joias preciosas.
No curtume comunitário, ouvi a história de vida do senhor José Carlos Castro, o oráculo do Distrito da Ribeira. A partir da arte do corpo aprendida com os antepassados e o choque da tragédia pessoal que abreviou a vida do seu jovem pai, a decisão do arrimo de família de juntar uma comunidade desesperançada a mudar a história. O couro salvando na cura, transformado nas oficinas artesanais e vendido como artigo de luxo na prateleira da Associação Arteza.
Em menos de três dias a expedição me causou profundo impacto e uma descoberta: o município tem sim muitas potencialidades, antes adormecidas e depois despertadas. Mas, o principal ativo de Cabaceiras é o seu povo. Poucas vezes vi alguém falar com tanto orgulho de sua terra. Do competente e disponível secretário de Turismo e Cultura, Toninho Menezes, ao seu Manoel, figurante do Auto da Compadecida, que até hoje se veste de cangaceiro para recepcionar turistas e reproduzir cenas do filme.
Cabaceiras é mesmo um encanto de lugar e uma inspiração de cidadania. A terra do menor índice de chuvas do Brasil fez chover e inundar aos seus de oportunidades. Deixei aquele sagrado solo caririzeiro com o coração batendo forte. Antes era curiosidade de longe, agora é admiração de pertinho. Foi amor à primeira visita. Não sei explicar direito. Só sei que foi assim na cidade que tirou leite – história, renda, emprego e orgulho – de suas pedras. Um sol de esperança!
Com MaisPB