A Festa que Expulsa seus Filhos
O São João nasceu do chão. De quintal, de devoção, de sanfona afinada na memória do povo. Não tinha patrocinador, não tinha métrica de streaming, não tinha cota de camarote. Tinha cheiro de milho assado e gente dançando descalça na poeira vermelha do Nordeste.
Aí o tempo foi passando e a festa foi crescendo. Virou evento. Depois virou produto. E quando vira produto, minha gente, a lógica muda todinha.
Os grandes palcos juninos ainda usam as bandeirolas, o nome, a estética da quadrilha e do forró. Mas vão empurrando pra fora, bem devagar, quem é portador vivo dessa tradição. Não é por decreto, não tem vilão de cara descoberta. É pela planilha fria, pelo critério técnico que diz que o artista que carrega décadas de história não performa bem digitalmente. Que seu cachê é alto demais pra sua projeção. Que a audiência dele não encanta o departamento de marketing do patrocinador.
Enquanto isso, artistas que nada têm a ver com o São João chegam com número de reprodução, encantam a reunião de secretaria e levam cachê maior que os guardiões da festa. Nenhum parecer questiona. Nenhum órgão fiscaliza. O critério técnico, aparentemente neutro, opera de forma seletiva: quem representa a essência sai. Quem representa o mercado fica.
E o perigo maior não é só a injustiça de hoje. É o apagamento de amanhã. O menino que cresce vendo esse São João, dominado por outros gêneros musicais, não vai sentir falta do que nunca conheceu. A expulsão do presente fabrica o esquecimento do futuro. Não pela proibição, mas pela substituição silenciosa.
O que era festa popular virou produto de entretenimento. O que era patrimônio virou ativo de marketing. O que era identidade coletiva virou cenário para negócios que usam a cultura como embalagem e descartam quem a produziu. Ficam com a marca. Expulsam os filhos.
A festa continua acontecendo. O nome permanece o mesmo. Só os filhos sumiram. E é exatamente por isso que nomear o processo é o primeiro ato de resistência: os filhos da festa estão sendo empurrados para fora dela!
Maurício Remígio
Dr. em Arte/Educação