A crônica de sábado: quando anos de consideração parecem valer menos que uma xícara de café em Bom Jesus-PB
Nos novos tempos, há quem troque longas alianças por histórias pequenas.
Quanto custa uma xícara de café?
Em muitos lugares mais populares, entre R$ 3 e R$ 5. Pois teria sido exatamente esse o “alto custo” que, ao não ser “pago”, segundo o próprio discurso público, teria contribuído para o rompimento do vice-prefeito de Bom Jesus, Edney Pereira, com a prefeita Denise Bayma.
Espere… ainda não ria. Não agora.
Nos últimos dias, após uma tentativa pouco bem-sucedida da recém-formada oposição — ainda sem rumo político muito claro — de concentrar esforços para capitalizar a chegada de uma nova ambulância ao município, tema que já vinha sendo divulgado em registros e notícias desde setembro do ano passado, o vice-prefeito foi questionado por um blogueiro da região sobre os motivos do rompimento político.
A expectativa era por uma explicação mais consistente: divergências administrativas, desacordos de gestão ou, quem sabe, um projeto político distinto. No entanto, para surpresa de muitos, o argumento inicial apresentado acabou sendo, no mínimo, inusitado.
Edney deixou a entender que nunca teria sequer tomado uma xícara de café na casa da prefeita.
Agora, sim… podem rir.
Nem mesmo os mais experientes contadores de causos da região talvez imaginassem que uma justificativa tão trivial ganharia espaço no debate político local.
Em Bom Jesus, nas últimas 24 horas, o episódio tomou conta das conversas.
Nos grupos de redes sociais, a história rapidamente virou motivo de comentários e ironias — afinal, em tempos de debates sobre gestão pública, desenvolvimento e prioridades administrativas, a política local acabou sendo reduzida, momentaneamente, à simbologia de uma xícara de café.
Mas, para quem acompanha de perto os bastidores da política municipal, o caso levanta uma reflexão menos bem-humorada.
Aliados da gestão lembram que, ao longo do mandato, a prefeita Denise Bayma abriu espaço institucional para o vice-prefeito, inclusive permitindo que ele assumisse o comando do Executivo em algumas ocasiões — gestos que, em tese, buscavam fortalecer a posição política do próprio Edney dentro da administração.
Ainda assim, avaliam interlocutores, o vice teria encontrado dificuldades para construir protagonismo próprio dentro do grupo político.
Há quem recorde também que a trajetória recente de Edney na política local contou com apoios decisivos. Ele chegou à presidência da Câmara Municipal em meio a uma forte articulação política, mesmo diante de resistências internas no Legislativo. Isso porque, diante das passagens anteriores de familiares do então aspirante pelo comando da Casa, parte do colegiado temia que a experiência — digamos — pudesse se repetir.
Posteriormente, na formação da chapa majoritária que venceu as eleições municipais, seu nome voltou a ser acolhido após intenso diálogo entre as lideranças do grupo.
Tanto na questão da presidência da Câmara quanto na composição da vice, Denise e Roberto teriam usado todo o estoque de argumentos políticos para alinhar aliados e consolidar o entendimento.
“Foi uma construção política que exigiu muito convencimento interno”, recorda uma fonte ligada ao processo.
Diante desse histórico, o argumento da “xícara de café” acabou sendo recebido com certo espanto por parte da população e de observadores da política local.
Não se trata, evidentemente, de medir gestos pessoais ou relações de convivência.
Na política, divergências são naturais e rompimentos também fazem parte do processo democrático.
O que chama atenção, no entanto, é a dimensão da justificativa apresentada publicamente.
Quando anos de convivência política, apoios institucionais e gestos de confiança acabam resumidos a uma metáfora doméstica, é inevitável que a população questione se esse é, de fato, o nível do debate que se espera de seus representantes.
Talvez o café não seja, de fato, o problema.
Mas, ao que parece, acabou se tornando o símbolo de uma explicação que, para muitos, ainda ficou pequena demais diante da dimensão da ruptura política anunciada.
E assim, às vésperas da Semana Santa — período em que tanto se fala em Judas — a política local ganha sua própria parábola: nos novos tempos, há quem troque longas alianças por histórias pequenas.
Judas, ao menos, ficou conhecido pelas 30 moedas. Por aqui, aparentemente, houve quem preferisse uma xícara de café..
Diário do país.
