Paraibana que viveu mais de 10 anos internada com doença rara deixa hospital: ‘chorei de alegria’
O cuidado que antes dependia do hospital passou a caber dentro de casa. Após onze anos de internação, a jovem Natanielly Ferreira, de 21 anos, recebeu alta do Hospital Universitário Lauro Wanderley, em João Pessoa, onde vivia desde a infância, depois de uma pneumonia grave.
A mudança aconteceu em 5 de fevereiro de 2026 e marcou o início de uma rotina fora dos corredores hospitalares, construída em família, no interior da Paraíba.
O reencontro com a vida fora do hospital
Foi nesse ambiente também que ela estudou, concluiu o ensino fundamental, seguiu no ensino médio e fez o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), em 2025. Mesmo durante a internação prolongada, o futuro não saiu do horizonte. Nat sonha em cursar Direito.
E força para seguir, segundo ela, veio de uma promessa feita ainda criança.
“Não desisti, porque quando eu era pequena, prometi ao meu irmão, quando ele tinha quatro anos, que eu ia voltar. Ainda não consegui encontrá-lo, mas quando contei que estava voltando, disse para ele: ‘me espera, viu?’. Ele enlouqueceu. Ficou mais feliz do que eu.”
O aniversário que marcou a virada
Antes mesmo da alta, Nat já havia vivido um ensaio do que seria estar fora. No ano passado, ela realizou um sonho antigo: comemorar o aniversário de 21 anos em uma casa de shows. A festa aconteceu na Priscylla’s Hall, em João Pessoa, e reuniu familiares, amigos e profissionais que a acompanharam durante os anos de internação no Hospital Universitário Lauro Wanderley.
Ao Jornal da Paraíba, ela contou que tudo foi pensado como imaginava , da decoração às músicas. Fã declarada de Luan Santana, fez questão de ouvir as canções que a acompanham há anos.
“Eu gostei de tudo. Tudo estava maravilhoso. Tinha que ter músicas do Luan Santana, sou muito fã dele. O que eu mais gostei da festa foram as músicas, eu gosto muito de músicas. A decoração achei maravilhosa. Foi legal estar com a família, com o pessoal do hospital. Me senti feliz e, ao mesmo tempo, nervosa. Era muita coisa”, contou.
A comemoração foi organizada por residentes multiprofissionais do hospital, com apoio da direção da casa de shows.
Aliás, o momento também carregou um outro sentido: a história de Nat se cruzou com a de Priscylla, filha do dono do espaço, Josenilton Cirne, que deu nome ao local e morreu jovem após enfrentar uma doença degenerativa. Naquela noite, a ausência virou homenagem, segundo ele.
‘Absurdamente dedicada e tem muita vontade de viver’
Segundo a médica Ana Flávia, que acompanhou Nat por cinco anos, a internação após uma pneumonia, complicação que se agravou por causa de seu quadro neuromuscular até então sem diagnóstico. Nat precisou passar pela Unidade de Terapia Intensiva (UTI), recebeu traqueostomia e seguiu dependente de suporte respiratório.
Com a estabilização do quadro, ela deixou a unidade, mas permaneceu internada por não existir, naquele momento, uma estrutura pública que garantisse o cuidado fora do hospital. Durante esse período, exames genéticos permitiram identificar a doença: uma distrofia neuromuscular rara por deficiência de Lama 2.
A equipe avaliava que, do ponto de vista clínico e humano, o ambiente hospitalar já não era o mais adequado para um caso crônico como o dela. Mas a mudança só foi possível quando o Estado passou a ofertar o home care para casos específicos. Nat preenchia todos os critérios. O pedido foi feito de forma administrativa e, no início de fevereiro, a alta foi autorizada.
Mesmo com limitações físicas severas, Ana Flávia destaca que Nat sempre demonstrou presença, interesse e desejo de seguir vivendo.
“Ela tem excessivas limitações físicas. Na verdade, só move, muito pouco, as duas mãos. Entretanto, tem o cognitivo absolutamente preservado, é absurdamente dedicada e tem muita vontade de viver. Conosco, ela estudou, foi batizada, teve festas de aniversário, interagia com muitas pessoas, tinha sonhos e desejos” , relatou.
Para a equipe, o vínculo criado ao longo dos anos ultrapassou a relação profissional. O cuidado virou convivência, e a rotina, afeto.
“Nós, como muito mais que equipe de saúde, e sim como sua família, sempre nos esforçamos para proporcionar o que podíamos para ela. Os técnicos de enfermagem, enfermeiros, fisioterapeutas, estudantes e demais pacientes, assim como os outros acompanhantes, sempre foram como verdadeira família, tanto em cuidado como em afeto para ela”
Jovem paraibana que viveu mais de 10 anos internada deixa hospital: ‘chorei de alegria’. Reprodução / Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares



